Mais que Violência: A Filosofia e o Amadurecimento nas Obras Seinen

Descubra a profundidade das obras seinen. Exploramos a filosofia, a natureza humana e a evolução incrível de personagens em Vagabond, Vinland Saga e 20th Century Boys.

MANGÁSANIMES

Rei Nerd

3/19/20265 min read

A Profundidade dos Seinen: Explorando a Filosofia e a Redenção em Obras Consagradas

Fala, galera! Tudo beleza com vocês? Puxa uma cadeira, pega um café (ou a sua bebida favorita) porque hoje o papo vai ser um pouco mais reflexivo. Nós, que consumimos cultura pop, animes e mangás há um bom tempo, sabemos que o nosso gosto vai mudando e amadurecendo junto com a gente. E é exatamente sobre esse amadurecimento que eu quero conversar hoje, focando em um nicho que tem um lugar muito especial na minha estante e no meu coração: as obras Seinen.

Se você tá caindo de paraquedas agora, Seinen é a demografia de mangás voltada para o público jovem adulto e adulto. E, olha, não me entenda mal. Eu sou um fã incondicional de Shounen. Na minha opinião, One Piece, por exemplo, é um dos melhores mangás já feitos e consegue trabalhar temas políticos, sociais e o desenvolvimento de personagens de uma forma magistral. Mas, sendo bem sincero e direto com vocês: na grande maioria das vezes, os Seinen conseguem mergulhar em temas complexos e desenvolver seus personagens com uma crueza e uma liberdade que os Shounens, por conta do seu público-alvo mais jovem, simplesmente não podem alcançar.

Obras Seinen não precisam mastigar a moral da história para o leitor. Elas te jogam no escuro, te apresentam a moralidade cinza e deixam você refletir. Hoje, eu quero destrinchar com vocês três pilares absurdos dessa demografia: Vagabond, Vinland Saga e 20th Century Boys. Vamos analisar a genialidade por trás do desenvolvimento desses personagens e a filosofia que permeia essas histórias.

Vinland Saga: A Brutal Jornada da Vingança à Redenção

Vamos começar falando de Vinland Saga, do mestre Makoto Yukimura. No começo, o que a gente vê? Um moleque tomado pelo ódio. Thorfinn é apresentado para nós como uma máquina de matar adolescente, vivendo exclusivamente para vingar a morte de seu pai, Thors. Ele respira o ódio, e a ironia cruel é que ele passa a trabalhar para Askeladd, o próprio assassino do seu pai, apenas para ter o direito de um duelo justo. Clique aqui para ler uma matéria onde falo mais sobre a obra

Mas é aqui que a genialidade de Yukimura brilha. Quando o motivo da existência de Thorfinn é arrancado dele de forma abrupta, o que sobra? O vazio. A transição do arco do prólogo para o arco da fazenda (o aclamado Farmland Arc) é, na minha opinião, uma das coisas mais bonitas já escritas nos mangás.

Nós acompanhamos a destruição psicológica do Thorfinn e o seu lento, doloroso e silencioso renascimento. Ele percebe o peso de cada vida que tirou. A cena em que ele entende as palavras do seu pai — "Você não tem inimigos. Ninguém tem inimigos" — bate na gente como um soco no estômago. O amadurecimento do Thorfinn não é sobre ficar mais forte fisicamente ou aprender um golpe novo, como rola muito em Shounens de batalha. É sobre a coragem de ser pacífico em um mundo que te exige violência. É sobre a verdadeira força necessária para carregar a culpa e escolher plantar sementes em vez de empunhar uma espada. A jornada de redenção dele nos faz questionar os nossos próprios conflitos diários.

Vagabond: A Busca Solitária pelo Autoconhecimento

Se Vinland Saga fala sobre redenção, Vagabond, a obra-prima ininterrupta (estamos no aguardo, Inoue!) de Takehiko Inoue, é a jornada definitiva de autoconhecimento. Baseado na vida do lendário espadachim Miyamoto Musashi, o mangá começa com um protagonista visceral. Takezo é um animal selvagem, um demônio movido pelo ego, pela agressividade e pela vontade de ser "invencível sob os céus".

A forma inteligente como Inoue desenvolve Musashi é quase espiritual. A cada duelo, a cada vida que Musashi tira, uma parte dele quebra, mas outra desperta. A filosofia do zen-budismo é destilada nas páginas, não com textos longos, mas com arte incrivelmente expressiva. Ele descobre que a verdadeira força não está na lâmina da espada, mas na vastidão do espírito humano.

Tem um momento específico na obra em que Musashi, depois de atingir o auge como espadachim, vai viver em uma vila e tenta plantar arroz em uma terra infértil. Parece loucura, né? O maior guerreiro do Japão na lama, lutando contra o clima. Mas é ali que ele entende a vida. Ele entende a conexão com a terra, com as pessoas, com a fragilidade da existência. A evolução de Musashi é sobre aparar as próprias arestas do ego até sobrar apenas a essência. É um convite para nós, leitores, olharmos para dentro e entendermos que a nossa maior batalha é sempre contra nós mesmos.

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20th Century Boys: O Terror do Comum e a Natureza Humana

Agora, vamos mudar completamente de cenário. Saímos das espadas e dos vikings e entramos no final do século XX com 20th Century Boys, a mente brilhante de Naoki Urasawa em ação. Aqui não temos superpoderes, não temos guerreiros milenares. Temos Kenji, um ex-aspirante a roqueiro fracassado que trabalha numa loja de conveniência de bairro, cuidando da sobrinha.

A genialidade de Urasawa é pegar algo tão inocente quanto uma brincadeira de criança — um clube de amigos que inventa um "Livro das Profecias" sobre o fim do mundo — e transformar isso num thriller psicológico e político de proporções globais. Quando as previsões bizarras da infância de Kenji começam a se tornar realidade pelas mãos de uma seita liderada por um homem misterioso conhecido apenas como "Amigo", a trama explode.

A evolução de Kenji é fantástica. Ele não é o "escolhido" clichê. Ele é um cara normal, assustado, cheio de arrependimentos, que decide assumir a responsabilidade pelas brincadeiras da sua infância. A obra aborda a natureza humana de uma forma assustadora, mostrando como as massas são facilmente manipuláveis. A seita do "Amigo" não domina o Japão com armas alienígenas, mas com política, religião cega, controle de mídia e carisma. Urasawa faz uma crítica pesadíssima a como governos e líderes religiosos podem distorcer a fé e o medo para controlar a sociedade. É ficção, mas parece tão real que chega a dar calafrios.

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Por que isso importa?

Vocês percebem o padrão aqui? Essas obras pegam o conceito de "força" e o viram do avesso. Nos Shounens, a evolução geralmente é externa (derrotar um vilão mais forte, alcançar um nível de poder). Nessas obras Seinen que exploramos hoje, a evolução é brutalmente interna.

Eles não fogem de temas difíceis. A depressão profunda do Thorfinn, a solidão esmagadora do Musashi, o peso do fracasso e a ascensão de governos tiranos enfrentados pelo Kenji. A forma como esses mangakás costuram essas narrativas, explorando o que há de mais sombrio e brilhante na natureza humana, é o que eleva a mídia a pura literatura.

Como eu disse lá no começo, não estou desmerecendo os shounens — afinal, o bando do Chapéu de Palha me arranca lágrimas há décadas. Mas existe um tipo de conversa que a gente só consegue ter quando amadurece, e essas obras Seinen são como aquele amigo sábio e calejado sentando do seu lado e te contando sobre as verdades dolorosas (e belas) da vida.

E você? Qual obra seinen mais mexeu com a sua cabeça até hoje? A jornada pacífica de Thorfinn, as reflexões de Musashi ou os mistérios do Amigo?

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Vinland Saga Vol 1
Vinland Saga Vol 2
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